Executivo que atuou na elaboração do Plano de Gestão de Peres foi primeira vítima de sua falta de palavra na presidência do Santos FC

Coluna do Andherson Oliveira

Que o presidente do Santos Futebol Clube, José Carlos Peres, muda de opinião mais rápido que muda de roupa, já é fato público. Se você pensa que o Executivo de Futebol, Gustavo Vieira, foi a primeira vítima dos desmandos de Peres, quando o demitiu com 45 dias de trabalho e sem contrato assinado, você está mal informado. A primeira vítima de Peres foi o ex-Diretor Executivo de Administração do Internacional de Porto Alegre, Luiz Eduardo Silveira, que estruturou o plano de gestão e o Plano de transição de Peres apresentado na campanha eleitoral de 2017.

Ex-Diretor Executivo de Administração do Inter, Luiz Eduardo Silveira estruturou o plano de gestão de Peres na campanha de 2017 (Foto: Reprodução/Whatsapp)

Ex-Diretor Executivo de Administração do Inter, Luiz Eduardo Silveira estruturou o plano de gestão de Peres na campanha de 2017 (Foto: Reprodução/Whatsapp)

Silveira pediu demissão do Inter em dezembro, a pedido de Peres, que fez a proposta formal em 11 de dezembro, e começou a trabalhar como representante do presidente na transição de gestão que ocorreu de 10 a 31 de dezembro no Santos. Com menos de 30 dias de trabalho começou a ser ignorado pelo presidente e foi dispensado por terceiros e não por quem tratou de sua vinda ao Santos FC. Quase foi despejado do hotel onde estava hospedado. Motivo do desprezo: Ter questionado Peres da decisão de demitir vários funcionários, contrariando resultado de votação de reunião do dia anterior do Comitê Gestor.

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Conheça mais essa história nebulosa da gestão de Peres:

MEU SOGRO É CANDIDATO
Atuando no Inter-RS, Silveira recebeu por duas vezes, em maio e em julho de 2017, no Beira-Rio o proprietário da empresa de marketing esportivo Match Day Brasil, Alessandro Rodrigues Pinto (atual gerente de Futebol Feminino do Santos), que foi conhecer a estrutura do time gaúcho e oferecer um produto de acesso ao estádio por chip em camisas. A sinergia e conversa fluiu bem, Alessandro perguntou a Silveira: “Em Dezembro, tem eleição no Santos, e meu sogro é candidato a presidente. “Não quer ajudar a gente e quem sabe depois ir trabalhar lá”. Vale lembrar que a Match Day Brasil tem outro sócio conhecido dos santistas: Daniel Bykoff, ex-diretor Jurídico de Peres, hoje “apenas” conselheiro.

Natural de Porto Alegre, Silveira morou em São Paulo muitos anos, atuando como executivo em empresas nacionais e multinacionais. Foi recrutado por uma das maiores empresas de seleção de executivos do mundo e selecionado para desenvolver um projeto de reestruturação e profissionalização no Internacional-RS. Estava feliz em retornar ao Sul e trabalhar com futebol, desenvolveu um organograma e modelo de gestão e o trabalho no Inter mostrava bons resultados. Silveira estava bem, mas sua esposa e filhas não se adaptaram com a vida em Porto Alegre. O profissional viu na oportunidade aberta por Peres e Alessandro a chance de retornar à São Paulo e agradar as mulheres de sua vida.

Entrou em contato com Alessandro e conheceu e estreitou laços com Peres. Em umas das reuniões realizadas em julho de 2017 na sede do G4 Paulista (Entidade de marketing dos quatro grandes de SP que era presidida por Peres), Silveira e Peres discutiram os pilares para a campanha e as propostas administrativas e financeiras do plano de gestão intitulado: “Propostas para um Santos Melhor”. As ideias de gestão nortearam a campanha da Chapa 1: Somos Todos Santos. Silveira deu orientações a Peres ainda no dia 02 de dezembro, com sugestões para o debate final realizado entre os candidatos.

TRANSIÇÃO
Após a vitória de Peres no pleito de 9 de dezembro, dia 11 de dezembro, Peres liga para Silveira e acerta condições salariais, pacote de mudança de sua família de volta à São Paulo, e pede para ele se desligar do Inter-RS, em caráter irrevogável. Silveira foi incumbido de fazer a transição entre a gestão de Modesto Roma e de Peres. “Deixei minha família em Porto Alegre, com minha esposa cuidando da mudança, troca de escola para as filhas e demais encargos que uma transferência tão radical provoca”, explica dizendo que saiu do Inter na mesma semana “Nem avisei para que clube ia, apenas que estava saindo em caráter irrevogável, não houve discussão e nem leilão”.

Silveira encontra o presidente Peres no escritório do G4 em São Paulo dia 18 de dezembro descem juntos a Santos para a posse simbólica. No dia seguinte, Peres monta seu comitê da transição e intitula Silveira como gestor. Além dele, fazem parte Daniel Bykoff e Ricardo Feijoo, ambos conselheiros eleitos do clube. Peres determina a agência de viagens do Santos que cuide da hospedagem de Silveira em Santos às custas do clube enquanto ele não pode ser contratado, uma vez que Peres só assumiu em 02 de janeiro de 2019 como presidente.

Dia 19 de dezembro, Silveira já estava em negociação com instituições bancárias para que o Santos pudesse fazer o pagamento de parcela do 13º e outras contas em dezembro, ainda na gestão Modesto Roma, mas em operação feita em acordo com Peres, sendo os dois avalistas. Silveira faz o organograma do clube, distribui funções, avaliou profissionais, e é nomeado informalmente por Peres como Superintendente Administrativo a partir de janeiro.

Ao ir ao clube formalizar seu vínculo em 02 de janeiro, a primeira decepção com Peres. Tudo o que havia sido combinado, foi “esquecido” pelo presidente, que queria repactuar o acerto anteriormente feito com o profissional mandando outras pessoas negociar com ele. O mesmo problema é enfrentado pelo ainda gestor financeiro do clube e conselheiro eleito, Ricardo Feijoo, que desabafa com Silveira no whatsapp. Os dias passam e a formalização nunca ocorre e o presidente Peres foge de atender Silveira sozinho.

Na primeira semana de janeiro, há a primeira reunião do novo Comitê de Gestão, com a presença do gestor administrativo, Luiz Eduardo Silveira, e o de futebol, Gustavo Vieira. Na pauta, inúmeros temas, entre eles uma lista de demissões que Peres tirou da manga, sem discutir com ninguém, de 300 pessoas que queria demitir já. O presidente ainda brincou chamando de “Os primeiros mortos de Esparta”. Segundo Peres, era uma análise técnica feita por Ricardo Marco Crivelli, o Lica, seu ex-sócio na empresa Saga Talent, empresa de agenciamento de atletas que servem de base para os seus pedidos de impeachment.

Entre os nomes demissionários, destacam-se ex-jogadores do clube, médicos, fisioterapeutas, funcionários com mais de 25 anos de clube, entre outros. Os nomes de maior destaque são os ex-jogadores Clodoaldo, Elano, Serginho Chulapa, Marcelo Fernandes, João Paulo, Juary, Nene, Abel, Lima, Pepe, Dorval, Mengávio, Léo Bastos. Na lista de funcionários do futebol, o coordenador Alexandre Ceolin, o preparador de goleiros Arzul, a psicóloga Juliane, todo o departamento médico e fisioterapêutico, até Kensho Noguchi, chefe do setor de transportes do time desde 1977, motorista do ônibus do clube. No setor administrativo, destacam-se Sônia Bardi (gerente de RH do clube desde a gestão Samir Abdul-Hak), Maneco (gerente do Estádio há cerca de 50 anos), Ivoni (acensorista e recepcionista), o gerente Emerson Cholby, a secretaria Melissa Maffei, os advogados Cristiano Caus, Mayti Justo e Gisele Cabrera; os jornalistas Ademir Quintino, Fabiano Farrah, Ranier Grande e Juan Reol; entre outros.

Na reunião, o Comitê de Gestão, liderado pelo vice-presidente Orlando Rollo, não aprovou a lista de demissões. Afinal, seria um gasto além da conta de uma vez só ao caixa do clube que teria que arcar com muitas rescisões. Análise óbvia, já que quatro gestores da época são executivos de grandes corporações: Andres Rueda, Hanie Issa, Fabio Gaia e Urubatan Helou. Além disso, na visão de muitos gestores, haviam profissionais que não deveriam ser demitidos.

Rollo ficou indignado com a inclusão dos ex-jogadores afirmando que era contra a essência que sempre norteou o Santos FC e foi categórico que não seriam realizadas as demissões propostas. “ Aliás, Rollo sempre foi mais ponderado e racional em suas colocações e suas decisões, mostrando que está apto a representar o clube”, comentou Silveira que complementou: “Conheci o Rollo em um evento da campanha em novembro de 2017 aonde falamos sobre as propostas para a campanha e para clube, passando até pelos técnicos e executivos de futebol disponíveis no mercado, se mostrou conhecedor da cultura e cenário político”.

Peres chama Luiz Eduardo Silveira à sua sala e manda ele começar a demitir as pessoas da lista de Lica. Silveira alerta a Peres que a decisão do Comitê Gestor na reunião era outra, que ele iria desagradar o vice e seus aliados, além disso, estaria descumprindo o Estatuto e as regras básicas de compliance. Peres responde gritando: “Vice não manda nada. Comitê gestor não manda nada. Quem foi eleito fui eu. Eu que mando e estou mandando fazer!”

Sem contrato firmado, sofrendo pressão para repactuar o combinado, com a família mudando de Estado, Silveira se viu em um impasse. Em sua mesa, com a cabeça fria, enviou mensagem de whatsapp ao presidente para que pensasse no que ele disse sobre o Comitê e as regras estatutárias. Peres nunca mais respondeu a ele. O clube chegou a recusar pagar o hotel onde Luiz Eduardo Silveira estava hospedado em Santos, mas posteriormente liquidou conforme acordo (Clube x Luis Eduardo).

Sem contato com o presidente, Silveira passa a tratar com Daniel Bykoff como ficaria sua situação. Afirma querer receber o mês trabalhado e ir embora. Firmou um contrato para ajuda na transição, recebeu um mês de trabalho abaixo dos valores pactuados com Peres (pagamento realizado em Maio de 2018), e voltou ao Sul desempregado.

Silveira hoje trabalha Diretor Executivo de RH, Gestão e CSC em uma empresa de grande porte no Sul e acaba de ser contratado por um dos quatro grandes clubes de São Paulo para fazer um projeto de consultoria para propor a reorganização administrativa deste clube.

Sobre José Carlos Peres, Luiz Eduardo Silveira diz: “ Peres diz uma coisa agora, daqui um minuto diz outra totalmente diferente. Não tem palavra. Não tem profissionalismo. Agenda reuniões e chega com horas de atraso. Se pudesse voltar no tempo, jamais queria ter conhecido José Carlos Peres e ter ajudado ele a se eleger presidente do Santos. Peço desculpas aos sócios do Santos. Montei um plano de gestão para uma pessoa que não é essa que hoje está no clube. Pensava que iriamos transformar o Santos em exemplo de gestão, mas o presidente esqueceu o que prometeu a mim e aos sócios”.

Silveira pede desculpas aos sócios do Santos por ter ajudado a eleger Peres e pede que todos o ajudem a tirá-lo agora no sábado (29). “Votem sim pela saída desse mentiroso”.

O Alvinegro da Vila recebeu, através de fonte confiável, prints de conversas em grupos de whatsapp, de Silveira com José Carlos Peres, Ricardo Feijoo e Daniel Bykoff. Veja abaixo.